Com investimentos que somam centenas de milhões de reais, projetos em Toledo e microrregião convertem passivos ambientais em biometano, biofertilizantes e autonomia energética para a granja
A virada de chave da sustentabilidade no campo
O Oeste do Paraná avança em ritmo acelerado para consolidar sua posição como o maior polo nacional de geração de biogás e biometano a partir da biomassa suinícola. O passivo ambiental histórico representado pelos efluentes da atividade agora se converte em ativo econômico estratégico de alto valor agregado, reposicionando as propriedades da região na vanguarda da transição energética do agronegócio global.
Estudos técnicos apontam que o Paraná detém um potencial estimado de geração diária de aproximadamente 1,488 milhão de m³ de biogás a partir do manejo de efluentes de lotes em terminação, tomando como base um rebanho estadual de 11,4 milhões de animais e concentrações médias de 65% de metano. O mapa de calor da produção revela que a microrregião Oeste concentra a maior densidade desse potencial, impulsionada pela elevada escala de terminação instalada.
Durante um ciclo médio de 100 dias de terminação, os animais produzem entre 3 e 15 litros de dejetos por dia, oscilando conforme a curva de desenvolvimento — desde a entrada no lote com cerca de 23 kg até a expedição para abate com aproximadamente 130 kg. O aproveitamento técnico dessa fração orgânica não apenas viabiliza vetores energéticos renováveis e biofertilizantes, como assegura a sustentabilidade regulatória para a própria expansão contínua da atividade regional.
Grandes projetos e aportes estruturantes em Toledo e região
O município de Toledo, capital nacional da suinocultura, atrai projetos industriais de grande envergadura voltados ao saneamento rural e à injeção de gás renovável. A multinacional alemã Mele lidera a implantação da primeira central de saneamento rural do Brasil, projeto orçado inicialmente em R$ 77,5 milhões viabilizados por investidores privados e financiamento do Banco Mundial. A planta operará conectada a uma malha de coleta encanada de efluentes na Microrregião do Rocio, integrando a recepção de dejetos de dezenas de granjas à purificação centralizada de biogás e fertilizantes organominerais.
Paralelamente, o BNDES aprovou R$ 148,5 milhões para a Bioo Paraná Holding erguer uma unidade de refino de biometano em Toledo. O montante integra um aporte global de R$ 196 milhões, conjugando R$ 101,5 milhões captados via Fundo Clima e R$ 47,1 milhões contratados pela linha FINEM.
Na esfera cooperativista, destaca-se o projeto Suíno Verde, idealizado pela Primato Cooperativa Agroindustrial em aliança com a MWM (braço tecnológico do grupo Tupy). A bioplanta em operação em Ouro Verde do Oeste recolhe a biomassa nos cooperados, executa a biodigestão anaeróbica controlada e gera biometano veicular e energia elétrica, além de retornar biofertilizantes que substituem insumos químicos na adubação das lavouras associadas.
| Iniciativa / Projeto | Município | Capitais Envolvidos | Foco Tecnológico |
| Central Mele de Saneamento Rural | Toledo | R$ 77,5 milhões (Banco Mundial / privado) | Rede coletora de efluentes e central de biometano |
| Bioo Paraná Holding | Toledo | R$ 196 milhões (BNDES / Fundo Clima) | Refino e compressão de biometano em escala |
| Projeto Suíno Verde (Primato / MWM) | Ouro Verde do Oeste | Privado / cooperativo | Biofertilizantes, biometano e ciclo fechado na granja |
| Modelo compartilhado Genaro & Facioni | Itaipulândia | Associativismo direto entre granjeiros | Geração descentralizada de energia e corte de custos |
Descarbonização e associativismo na prática
O impacto ambiental do tratamento dos dejetos reflete diretamente nos inventários de gases de efeito estufa. Dados apurados pelo Hub de Descarbonização da FIESC e ratificados no 8º Fórum Sul de Biogás e Biometano atestam que a instalação de biodigestores permite abater até 20% das emissões diretas nas granjas — mitigação que abre caminho para o mercado de créditos de descarbonização e para a conformidade com as diretrizes internacionais de rastreabilidade ESG.
No cotidiano das pequenas e médias propriedades, a resposta econômica passa pela cooperação horizontal. Em Itaipulândia, os suinocultores José Valdir Genaro e Ari Facioni estabeleceram um modelo de economia compartilhada: uniram os efluentes de suas propriedades vizinhas para alimentar um único biodigestor acoplado a um gerador elétrico comum. A cerca divisória entre as áreas tornou-se mera formalidade perante o objetivo de conquistar escala técnica — garantindo autossuficiência de eletricidade para ventilação e climatização dos galpões, além de remunerar a sobra injetada na rede da distribuidora local.
A transformação das granjas do oeste do Paraná
O presidente da Assuinoeste, Delmar Briccius, ressalta a magnitude dessa transformação para as granjas do interior paranaense:
“O dejeto bem manejado é o combustível da próxima década. Estamos presenciando uma virada em que o passivo ambiental da atividade se consolida como ativo gerador de riqueza, aliviando custos de energia e blindando as granjas com renda complementar previsível”, destacou Delmar.
Briccius ainda enfatizou o projeto de expansão encabeçado pela Assuinoeste. “Essa lógica fecha um ciclo perfeito com o que já desenvolvemos no Projeto de Recolha Legalizada de Carcaças: nós transformamos passivos biológicos e sanitários em matéria-prima para biocombustíveis e energia limpa. Caminhando para celebrar 51 anos em dezembro, a Assuinoeste atua como ponte permanente para orientar nossos associados sobre licenciamento ambiental, acesso aos recursos do Fundo Clima e adoção das melhores tecnologias de biodigestão. Nosso dever institucional é garantir que a riqueza dessa nova fronteira permaneça prioritariamente nas mãos das famílias que vivem da suinocultura nos nossos 54 municípios.”
A atuação estratégica da Assuinoeste
Com representatividade sobre 54 municípios e quase 16.000 propriedades suinícolas, a Assuinoeste articula iniciativas com órgãos de extensão rural, instituições financeiras de fomento e indústrias de bens de capital, desmistificando o acesso aos sistemas de biodigestão:
- Suporte regulatório e licenciamento: acompanhamento dos parâmetros dos órgãos ambientais para outorga de uso de efluentes e distribuição de biofertilizantes;
- Acesso a linhas de financiamento verde: orientação técnica para submissão de projetos individuais ou em consórcio ao Fundo Clima e aos programas estaduais de energia renovável;
- Sinergia sanitária regional: integração entre a biodigestão dos dejetos e o Projeto de Recolha Legalizada de Carcaças, garantindo que nenhum resíduo biológico de granja permaneça sem destinação sustentável e rastreável;
- Capacitação em economia circular: dias de campo e rodadas técnicas para disseminar casos práticos de geração descentralizada e compartilhamento de biodigestores entre vizinhos.
A consolidação do Oeste do Paraná como polo de biogás demonstra que a eficiência zootécnica e a integridade ecológica caminham juntas. Às vésperas de seus 51 anos em dezembro de 2026, a Assuinoeste renova seus compromissos com a tecnologia, a biosseguridade e o associativismo resolutivo, assegurando que o suinocultor siga protagonista na transição energética nacional.



