Reportagem do RIC RURAL retrata a cadeia controlada do piloto em Toledo — do produtor que sofre com a composteira ao processamento que transforma cada carcaça em biodiesel e biofertilizante; projeto-piloto de 24 meses envolve Assuinoeste, Adapar, IAT, Ministério Público e empresas
O passivo que pesa 300 toneladas por dia
Na região Oeste, cerca de 300 toneladas de animais mortos por dia deixam o sistema produtivo da suinocultura. É esse volume que sustenta o desafio sanitário e ambiental retratado em reportagem veiculada no programa RIC Rural (04/10), assistir aqui, que acompanhou de ponta a ponta o Projeto Piloto de Recolha Legalizada de Carcaças, em Toledo — iniciativa liderada pela Assuinoeste em conjunto com produtores, o Município de Toledo, a Adapar, o IAT, o Ministério Público e as empresas responsáveis pelo transporte e processamento.
A reportagem mostra a realidade que o suinocultor conhece de sobra: hoje, a principal forma de destinação ainda é a compostagem — carcaças cortadas e acondicionadas em estruturas próprias, aguardando decomposição. Mas o volume gerado pela produção já supera a capacidade das composteiras em absorver os animais que morrem no ciclo produtivo, e o processo não é 100% eficiente — fato percebido inclusive nas fiscalizações realizadas nas granjas durante as renovações de licença.
A dor do produtor e o risco da recolha clandestina
Os depoimentos ouvidos pela reportagem deixam claro o peso operacional do sistema atual. “A gente sabe o problema que é esquartejar animal. A gente sabe como sofre o produtor na questão de ter que esquartejar um suíno e colocar na composteira”, declarou à reportagem um técnico que atua na fiscalização das granjas.
O vazio deixado pela compostagem é preenchido, em parte, pela recolha clandestina — prática que expõe toda a suinocultura a risco sanitário e que, segundo a reportagem, “está sofrendo bastante pressão”. É justamente contra esse cenário que o projeto legalizado se estrutura: uma cadeia credenciada, rastreada e fiscalizada, que fornece informação precisa de onde o animal saiu e onde ele foi parar — do início ao fim do processo.
Como funciona a cadeia controlada
O recolhimento de suínos mortos, como reforça a reportagem, não é apenas transporte: é uma operação que exige controle sanitário, rastreabilidade e biossegurança para que a solução não se transforme em risco. A cadeia retratada funciona assim:
- Coleta credenciada: empresa autorizada recolhe as carcaças nas propriedades, com veículos e procedimentos fiscalizados pela Adapar;
- Rastreabilidade total: cada material é documentado da granja ao processador, garantindo conformidade sanitária e ambiental;
- Processamento em ambiente fechado: a carcaça passa por trituração, cozimento, prensagem, moagem e centrifugação;
- Destinação nobre: a gordura é vendida exclusivamente para biodiesel — combustível ecologicamente correto —, e a parte muscular e óssea vira fertilizantes orgânicos e organominerais. Nada volta à cadeia de alimentação animal.
24 meses de avaliação com validação de todos os órgãos
O piloto tem duração inicial de 24 meses, período em que os resultados sanitários e ambientais serão acompanhados: a regularidade da operação da empresa processadora, o tratamento do efluente, a ausência de odor que afete a comunidade vizinha e a garantia de que nenhum produto deriva para a alimentação animal.
Na esfera ambiental, o IAT avalia a regularização do processo para facilitar a operação do produtor, enquanto a discussão fitossanitária — com as restrições apontadas pelas integradoras quanto ao risco de contaminação — segue em construção. Para os envolvidos, porém, a convicção é única: “não tem como não dar certo”.
Fechar o ciclo de forma responsável e humana
O fechamento da reportagem traduz o espírito do projeto: a destinação correta devolve ao produtor “a sensação de fechar esse ciclo de forma responsável”, com um processo “mais humano”, em que entregar o animal morto passa a ser um bem — porque ele é reaproveitado para produzir algo positivo.



