Em entrevista ao Guaçu Notícias, o promotor Giovani Ferri afirmou que existe mais risco sanitário na prática irregular do que na recolha por empresa licenciada, anunciou o fim do diálogo com setores resistentes e a adoção de medidas processuais — na véspera, Leoclides Bisognin, da Assuinoeste, e Karoline Filadelfo, da Secretaria de Agricultura de Toledo, haviam tratado do mesmo tema no mesmo programa
O Ministério Público na tribuna da rádio
Na quarta-feira (28/10), o promotor de Justiça Dr. Giovani Ferri participou do programa Guaçu Notícias, da Rádio Guaçu FM 100.7, em entrevista ao jornalista Wanderley Graeff. À frente da 3ª Promotoria de Justiça da Comarca de Toledo — responsável pelas áreas de Meio Ambiente, Habitação e Urbanismo nas esferas cível e criminal — e coordenador do GAEMA (Grupo de Atuação Especializada em Meio Ambiente, Habitação e Urbanismo) nas regionais de Cascavel e Foz do Iguaçu, o promotor dedicou parte significativa da conversa a um tema que é a maior dor do suinocultor da região: a recolha e a destinação das carcaças de suínos nas propriedades rurais.
Os números que dimensionam o problema
O promotor abriu a conta com os dados do setor: o Paraná é o segundo maior produtor de suínos do Brasil, só atrás de Santa Catarina, com um plantel aproximado de 7 milhões de animais — e Toledo responde por cerca de 60% desse número, na avaliação do promotor. Segundo ele, a média de mortandade apontada pelo Ministério da Agricultura gira em torno de 4% a 5% do plantel: animais que morrem por causas naturais, temperaturas elevadas, no transporte ou por eventos como raios e intempéries.
E o produtor se depara com a exigência de dar destino a cada um desses animais. O relato do próprio programa, na véspera, ilustra o tamanho do drama: um produtor passou a madrugada de Natal inteira no trabalho de compostagem após a morte de 19 suínos de uma só vez na propriedade — um trauma que chega ao ponto de comprometer a relação do produtor com a própria atividade.
O posicionamento do promotor: recolha legalizada é mais segura que a prática irregular
Dr. Giovani Ferri foi direto ao ponto — e seu posicionamento representa um respaldo institucional decisivo para a Recolha Legalizada de Carcaças de Suínos:
“O suinocultor quer fazer a coisa certa. Ele não quer fazer a compostagem — ele tem muita dificuldade. Como que você faz a compostagem de 15, de 20 animais que morreram por um raio, por uma intempérie numa propriedade? O suinocultor não consegue fazer isso. Ele quer retirar esse animal legalmente da sua propriedade, entregar para uma empresa licenciada que faça o descarte legal. Ele quer fazer isso, ele quer participar — e ele está encontrando resistência do setor.”
O promotor lembrou que já existe, na região, uma empresa licenciada e autorizada pelo Ministério Público e pelo Instituto Água e Terra (IAT) para operar o recolhimento e o processamento das carcaças — e que, mesmo assim, o setor produtivo enfrenta resistência de integradoras e frigoríficos que não aceitam o formato e exigem a compostagem tradicional na propriedade.
E a comparação que resume o dilema sanitário:
“O que é mais seguro? Você ter uma empresa licenciada que recolhe esse animal, fiscalizada pelo Ministério Público e pelo IAT — ou você ter um atravessador que retira ilicitamente esse suíno da propriedade e manda para ninguém sabe para onde?”
O alerta: o “atravessador” é o maior risco sanitário
Para o promotor, a resistência à recolha legalizada abre espaço para o pior cenário: o chamado atravessador, que retira ilegalmente animais mortos das propriedades, sem autorização de ninguém, e lhes dá destinação desconhecida. Na avaliação dele, “hoje existe mais risco sanitário em continuar essa prática irregular do que retirar de forma legalizada o animal da propriedade” — um problema gravíssimo nos planos sanitário e ambiental.
O recado veio com anúncio de endurecimento: o Ministério Público já realizou operações no passado, prendeu pessoas envolvidas na prática ilegal — e agora vai “apertar o cerco”. Dr. Ferri anunciou que cessou o diálogo com alguns setores que resistem à solução legal e que passará a adotar medidas processuais: “não adianta dialogar, nós percebemos”.
Uma semana de mobilização — e a voz da Assuinoeste no mesmo microfone
A entrevista do promotor fecha uma sequência de mobilização pelo tema. Na véspera, dia 27, o gerente executivo da Assuinoeste, Edson Pacheco, e Karoline Filadelfo — engenheira de pesca e titular da Coordenação de Proteína Animal da Secretaria Municipal de Agricultura e Proteína Animal de Toledo — participaram ao vivo do mesmo programa da Rádio Guaçu, tratando do recolhimento de carcaças e reforçando a relevância da Recolha Legalizada de Carcaças de Suínos.
A sequência — entidade e poder público municipal no ar um dia, o promotor de Justiça no dia seguinte — mostra que o tema saiu definitivamente do impasse de duas décadas e ganhou a arena pública em todas as suas instâncias: a entidade, o município e o Ministério Público falando a mesma língua. O debate soma-se à reunião técnica na Prefeitura de Toledo (21/10), que reuniu MAPA, Embrapa, ABRA, ABRAVES, órgãos ambientais, integradoras, cooperativas e produtores em torno do mesmo desafio.
A voz da entidade
O presidente da Assuinoeste, Delmar Briccius, celebrou o posicionamento do promotor:
“Quando o Ministério Público afirma publicamente que o suinocultor quer fazer a coisa certa e que a recolha legalizada é mais segura que o atravessador, o setor ganha o respaldo que faltava. O produtor não é o problema — ele é quem sofre com o problema. A Assuinoeste seguirá ao lado do promotor, da Prefeitura e dos órgãos ambientais até a recolha legalizada ser uma prática consolidada em toda a região — e até que nenhuma integradora possa mais impedir o produtor de agir dentro da lei.”
Assistir à entrevista
A entrevista completa está disponível no YouTube: Guaçu Notícias — entrevista com o promotor Giovani Ferri.



